Olá!
Em nosso último encontro falei que muitas mulheres passam a vida se disfarçando para agradar a sociedade.
E que o resultado disso, muitas vezes, é que nos afastamos de tal forma de nós mesmas que acabamos esquecendo de como realmente somos.
Listei algumas características de uma mulher saudável, e sugeri uma interiorização que buscasse dentro de você essa mulher. Que lhe respondesse o quanto você está perto ou distante de si mesma.
E disse que algumas situações de nossas vidas são situações iluminadoras, ou seja: fazem-nos sentir a presença da mulher selvagem naturalmente, sem que façamos esforço para isso, provocando em nós uma enorme vontade de estar mais e mais em contato com essa mulher selvagem. Nossa essência, nossa alma. E prometi que contaria a você uma experiência sonora que tive, que foi muito claramente uma situação iluminadora. Vamos lá!
Sou a última de seis irmãos. Quando nasci, minha irmã mais nova já tinha cinco anos. Ao chegar aos oito, eu era a única criança da casa. Para mim, meus irmãos eram todos adultos. Eu sentia um grande distanciamento deles, o que me dava uma certa sensação de solidão. Hoje percebo que naquela época provavelmente eu já começara a me “disfarçar”, para não desagradar demais minha família de adultos. A grande sorte que tive foi que nunca me incomodei muito em desagradar, talvez por já ter uma alma bem presente, o que me deu fama de rebelde.
Durante um bom período da minha infância e adolescência, sempre que as férias chegavam, minha melhor amiga me convidava para passá-las em seu apartamento, em Santos. Era uma verdadeira farra! Estava com alguém da minha idade, num lugar agradável, íamos à praia, dormíamos tarde, falávamos muito e comíamos as maravilhosas iguarias que sua cozinheira nos fazia! Verdadeira receita de felicidade! Eram momentos muito bons, nos quais eu não me importava com nada, a não ser em me divertir como bem entendesse, e ser eu mesma.
Vez ou outra, quando estávamos na sala, jogando cartas ou assistindo TV, escutávamos uma voz ao longe gritando: “Olha o pão de cará! Pão de cará fresquinho…” Pulávamos de onde estivéssemos e íamos em busca de dinheiro para comprar o maravilhoso pãozinho! Quando subíamos, a cozinheira de minha amiga, uma negra que me fazia viver o sonho de estar no Sítio do Pica-pau Amarelo com Tia Anastácia, já colocara a mesa, já fizera o café e já fervera o leite. Passávamos a manteiga nos pães e os comíamos, alegres, e o prazer do paladar misturava-se ao prazer de estarmos juntas, de férias e despreocupadas, numa sensação que, na época, talvez eu não imaginasse que seria inesquecível.
A vida nos levou pra rumos diferentes, nunca mais vi minha “melhor amiga”, mas aquela sensação ficou guardada em algum compartimento da minha alma, para que nalgum dia, alguma “chave” o abrisse e a libertasse.
Poucos anos atrás, eu já com mais de quarenta anos, estava numa viagem de férias numa praia do Litoral Norte de São Paulo, com toda a minha família, e me balançava levemente numa rede, num fim de tarde, quando escuto ao longe: “Olha o pão de cará! Pão de cará fresquinho…” Aquilo foi como um retorno à minha infância, e veio com tanta força, que pulei da rede e saí correndo em busca de dinheiro para alcançar o vendedor antes que fosse embora! Coei café, fervi leite, pus a mesa, e comi aquele pãozinho de cará sentindo a mesma alegria em minha alma que sentia nas minhas férias em Santos!
O vendedor de pães passava todas as tardes, e todas as tardes, até voltarmos pra São Paulo, eu comprei pães de cará e os comi como se estivesse resgatando um pedaço alegre da minha natureza. E aquela sensação específica de alegria aflorava no momento em que eu ouvia, longe, o chamado do vendedor. Voltei pra casa mais gorda, é claro! Foi a percepção mais forte que tive do poder de nossa memória auditiva, e de como um simples som pode abrir uma porta para a alma. E foi fantástico!
Essa inspiração fugaz que se apossa de nós nesses momentos, e que nos faz perceber que ainda estamos vivas é motivação para que viremos a mesa, porque não vamos mais prosseguir sem ela. Nesses momentos de iluminação percebemos o quanto nossa vida pode ser mais natural, mais vibrante.
Eu gostaria agora que você pensasse a esse respeito, e tentasse encontrar em sua memória suas próprias experiências, suas próprias histórias.
Um alerta: você deve estar preparada para o seguinte: no início da restauração do seu relacionamento com a mulher selvagem ela pode se dissolver em fumaça a qualquer instante. Se lhe damos um nome estamos criando um espaço de pensamento e sentimento para ela dentro de nós. Ela virá, e se a valorizarmos, permanecerá.
Espero sinceramente, que você a chame, que a nomeie (pode ser mulher selvagem mesmo, ou qualquer outro nome que queira lhe dar, mas que você saiba que é ela), que tenha um pouco de paciência para esperar que ela se manifeste, que a receba bem, e que permita que fique.
Espero que neste Natal você já tenha catado vários ossinhos, rsrs… e que, no início de 2010 você já comece a remontar seu esqueleto. E que passe 2010 todinho cantando sobre eles, soprando vida em você mesma, renascendo a cada dia, e a cada dia mais feliz!
Um Feliz Natal e um maravilhoso Ano Novo pra todas vocês!