Ana Lucia

8 de julho de 2010

Reencontre-se!

O Capote Expiatório

Olá! :)

Ao longo de Mulheres que Correm com os Lobos, por inúmeras vezes, Clarissa insiste em que usemos a arte para entrar em contato com nossa alma, e manifestarmos o que temos de melhor em nós. São chamadas que nos despertam instantaneamente uma enorme vontade de nos dedicarmos à arte com que mais nos identificamos. Você gosta de escrever? – ela pergunta. E encoraja: pegue lápis e papel, e escreva! O que você gosta de fazer? Faça! Vá desenhar, pintar, esculpir, bordar, tocar, cantar, mas vá! Crie, transforme essa maravilhosa energia criadora que você tem dentro de você em algo que possa ser lido, visto, ouvido, apreciado, criticado! É sempre altamente gratificante!

A sensação que temos depois de criar algo de que gostamos nos preenche de tal forma, que, por algum tempo, parece que não precisamos de mais nada. Estamos ancoradas em nós mesmas. Se o que sentimos em relação ao que criamos é positivo, a crítica alheia não importa. Dane-se! – é o que penso quase sempre quando sinto que escrevi algo muito bom, mas alguém insiste em achar defeitos. Esse sentimento é o exato oposto daquele que já citei, que nos acomete depois de passarmos um dia inteiro à la zumbi, servindo aos outros e nos deixando de lado. Aquele imenso vazio transforma-se numa maravilhosa plenitude.

Além disso, o trabalho artesanal, como já comentei outras vezes, faz com que você se interiorize, e se o tema for a sua própria vida, então você estará, como La Loba, percorrendo estradas e leitos secos de rios, e aposto que voltará com um bom feixe de ossos sobre os ombros! ;)

Como temos conversado sobre as várias formas de recolher ossos, hoje quero sugerir mais uma, baseada num relato que Clarissa faz no capítulo Marcas de Combate: A participação no Clã das Cicatrizes.Clarissa conta que, às vezes, ensina as mulheres com quem está trabalhando a fazerem um capote expiatório, de tecido ou de algum outro material. Ela explica: “Um capote expiatório é um casaco que descreve em detalhes, pintados ou escritos, e com todo tipo de coisas costuradas ou pregadas nele, os insultos que a mulher sofreu na sua vida – todas as ofensas, calúnias, traumas, feridas, cicatrizes. É a sua afirmação da experiência da mulher de ser transformada em bode expiatório. Ele é de extrema utilidade para a descrição de todas as mágoas, baques e golpes da vida da mulher.”

A princípio, Clarissa fez um capote para si mesma. Diz que ficou pesadíssimo de tantas coisas que fixou nele. E que sua intenção inicial era incinerá-lo, quando estivesse pronto, para que, com ele, sua antiga fragilidade também fosse incinerada. No entanto, ela pendurou o casaco no teto do corredor e, ao passar por ele, em vez de se sentir mal, sentia-se extremamente bem, porque havia sobrevivido a tudo aquilo, e era admirável o fato de estar “andando inabalável, cantando, criando e abanando o rabo”. O mesmo acontecia com suas pacientes. Elas nunca queriam destruir seus capotes expiatórios depois de prontos, porque eles eram a prova de sua resistência, derrotas e vitórias.

Clarissa compara esses capotes aos hieróglifos que o povo lakota pintava em peles de animais para registrar os acontecimentos do inverno e aos códigos de registro dos grandes eventos das tribos dos povos Náuatle, Maia e Egípcio. Se pergunta o que as netas e as bisnetas das donas desses capotes pensarão, ao ver as vidas dessas mulheres assim registradas, e fica desejando que lhes expliquem, porque ali estão suas mais difíceis opções. O capote expiatório e a intenção inicial de Clarissa, de queimá-lo, me lembrou alguns rituais japoneses em que escrevemos num papel tudo aquilo de que queremos nos livrar, como mágoas ou remorsos, e depois o queimamos, orando.

Minha sugestão é de que você não fique só pensando. Faça seu capote expiatório, usando a arte que tenha mais a ver com você. Adapte-o ao seu bel prazer. Sei que quando a coisa começa a ficar meio complicada, a tendência é deixar prá lá… Então, vamos pelo caminho mais fácil. Se você não é muito afeita a costurar, mas gosta de desenhar, desenhe! Pegue uma folha de cartolina, algumas canetas hidrocor, ou o material de que goste mais, desenhe o capote, limpo, e então comece a lembrar dos momentos cruciais da sua vida.

Na minha opinião, já que você já sabe que a intenção não é necessariamente queimá-lo, mas orgulhar-se dele, acho que podemos ir mais longe: faça um verdadeiro mapeamento de todos os momentos importantes da sua vida, não apenas daqueles em que sofreu ou foi sacrificada, mas também daqueles em que foi muito feliz, em que se sentiu realmente viva. Você pode descrever cada momento desses num pequeno post-it e grudá-lo ao desenho do capote. Se gosta de escrever, escreva! Essa catarse você terá de fazer da forma que achar melhor. No meu caso, sempre faço escrevendo. E eu, pessoalmente, também jamais tenho vontade de queimar meus textos, mas sempre me orgulho deles e, relendo-os, sinto-me realmente forte, porque vejo que sobrevivo a tudo, exatamente como Clarissa descreve.

Nessa atividade há algo que considero tão ou mais importante do que simplesmente lembrar e registrar. Não faça isso com pressa. Não se imponha um prazo para terminá-la.

Pode-se demorar um dia ou meses para terminar um trabalho desses. Ou jamais terminar. Acredito que seja extremamente importante, a cada registro que você fizer, você realmente lembrar porque aquilo, naquela ocasião, te causou tanto desgosto ou alegria. E como você vivenciou isso, como curtiu essa alegria ou como livrou-se da dor.

Que crenças você tinha, que fizeram com que o acontecimento fosse tão traumático? De onde você tirou forças para reagir? Que estratégia usou para superar a situação? E, depois de superá-la, como se sentiu? Hoje, quando se recorda, o que pensa disso? Se a situação se repetisse, no seu contexto atual, reagiria diferente? Não sofreria tanto? Sairia dela da mesma forma? Ou ela já representaria uma bobagem, com a cabeça que você tem hoje? Se você achar interessante, registre num caderno, ou num arquivo, todas essas impressões. Você estará escrevendo a história da sua vida. Mais do que isso: estará compreendendo essa história. E, através dessa compreensão, acredito que poderá escrever uma história mais feliz daqui pra frente. :)

Outra coisa tremendamente importante: você conseguirá captar se realmente tudo em sua vida foi resolvido. Ou se você pulou algumas etapas, escondeu sujeiras sob o tapete, fingiu ter engolido coisas que, na verdade, apenas está mascando, como um chiclete velho que já causa engulhos, mas que você não sabe onde jogar.

Essa é a hora pra você começar a resolver tudo isso. Resgate as etapas perdidas, viva o que não foi vivido, levante o tapete, encare essa sujeira e varra-a para o lixo, cuspa esse chiclete, você não precisa engolir isso! Faça uma limpeza na sua vida. Chore rios de lágrimas, se for preciso, mas, como diz Clarissa, essas lágrimas vão desencalhar do meio das pedras o barco que carrega a vida da sua alma, e vão carregá-lo para um lugar novo, um lugar melhor. Tenha essa coragem. Isso é imprescindível. Bom trabalho!

Beeeijos! :)

Analú

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Ana Lucia

Ana Lucia Sorrentino é... Escritora e revisora de textos. Autora dos livros Traições (romance), Acasos (contos) e Alento (poesias), e do blog www.reencontrandosuaalma.blogspot.com. Posta crônicas em www.terapia-cotidiana.com Para adquirir seus livros, marcar uma conversa pessoalmente ou por e-mail, ou formar um grupo de estudo, mande um e-mail para analugare@yahoo.com.br ou ligue para (11)2671-2232/ 9195-7381.


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