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O Capote Expiatório

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Olá! :)

Ao longo de Mulheres que Correm com os Lobos, por inúmeras vezes, Clarissa insiste em que usemos a arte para entrar em contato com nossa alma, e manifestarmos o que temos de melhor em nós. São chamadas que nos despertam instantaneamente uma enorme vontade de nos dedicarmos à arte com que mais nos identificamos. Você gosta de escrever? – ela pergunta. E encoraja: pegue lápis e papel, e escreva! O que você gosta de fazer? Faça! Vá desenhar, pintar, esculpir, bordar, tocar, cantar, mas vá! Crie, transforme essa maravilhosa energia criadora que você tem dentro de você em algo que possa ser lido, visto, ouvido, apreciado, criticado! É sempre altamente gratificante!

A sensação que temos depois de criar algo de que gostamos nos preenche de tal forma, que, por algum tempo, parece que não precisamos de mais nada. Estamos ancoradas em nós mesmas. Se o que sentimos em relação ao que criamos é positivo, a crítica alheia não importa. Dane-se! – é o que penso quase sempre quando sinto que escrevi algo muito bom, mas alguém insiste em achar defeitos. Esse sentimento é o exato oposto daquele que já citei, que nos acomete depois de passarmos um dia inteiro à la zumbi, servindo aos outros e nos deixando de lado. Aquele imenso vazio transforma-se numa maravilhosa plenitude.

Além disso, o trabalho artesanal, como já comentei outras vezes, faz com que você se interiorize, e se o tema for a sua própria vida, então você estará, como La Loba, percorrendo estradas e leitos secos de rios, e aposto que voltará com um bom feixe de ossos sobre os ombros! ;)

Como temos conversado sobre as várias formas de recolher ossos, hoje quero sugerir mais uma, baseada num relato que Clarissa faz no capítulo Marcas de Combate: A participação no Clã das Cicatrizes.Clarissa conta que, às vezes, ensina as mulheres com quem está trabalhando a fazerem um capote expiatório, de tecido ou de algum outro material. Ela explica: “Um capote expiatório é um casaco que descreve em detalhes, pintados ou escritos, e com todo tipo de coisas costuradas ou pregadas nele, os insultos que a mulher sofreu na sua vida – todas as ofensas, calúnias, traumas, feridas, cicatrizes. É a sua afirmação da experiência da mulher de ser transformada em bode expiatório. Ele é de extrema utilidade para a descrição de todas as mágoas, baques e golpes da vida da mulher.”

A princípio, Clarissa fez um capote para si mesma. Diz que ficou pesadíssimo de tantas coisas que fixou nele. E que sua intenção inicial era incinerá-lo, quando estivesse pronto, para que, com ele, sua antiga fragilidade também fosse incinerada. No entanto, ela pendurou o casaco no teto do corredor e, ao passar por ele, em vez de se sentir mal, sentia-se extremamente bem, porque havia sobrevivido a tudo aquilo, e era admirável o fato de estar “andando inabalável, cantando, criando e abanando o rabo”. O mesmo acontecia com suas pacientes. Elas nunca queriam destruir seus capotes expiatórios depois de prontos, porque eles eram a prova de sua resistência, derrotas e vitórias.

Clarissa compara esses capotes aos hieróglifos que o povo lakota pintava em peles de animais para registrar os acontecimentos do inverno e aos códigos de registro dos grandes eventos das tribos dos povos Náuatle, Maia e Egípcio. Se pergunta o que as netas e as bisnetas das donas desses capotes pensarão, ao ver as vidas dessas mulheres assim registradas, e fica desejando que lhes expliquem, porque ali estão suas mais difíceis opções. O capote expiatório e a intenção inicial de Clarissa, de queimá-lo, me lembrou alguns rituais japoneses em que escrevemos num papel tudo aquilo de que queremos nos livrar, como mágoas ou remorsos, e depois o queimamos, orando.

Minha sugestão é de que você não fique só pensando. Faça seu capote expiatório, usando a arte que tenha mais a ver com você. Adapte-o ao seu bel prazer. Sei que quando a coisa começa a ficar meio complicada, a tendência é deixar prá lá… Então, vamos pelo caminho mais fácil. Se você não é muito afeita a costurar, mas gosta de desenhar, desenhe! Pegue uma folha de cartolina, algumas canetas hidrocor, ou o material de que goste mais, desenhe o capote, limpo, e então comece a lembrar dos momentos cruciais da sua vida.

Na minha opinião, já que você já sabe que a intenção não é necessariamente queimá-lo, mas orgulhar-se dele, acho que podemos ir mais longe: faça um verdadeiro mapeamento de todos os momentos importantes da sua vida, não apenas daqueles em que sofreu ou foi sacrificada, mas também daqueles em que foi muito feliz, em que se sentiu realmente viva. Você pode descrever cada momento desses num pequeno post-it e grudá-lo ao desenho do capote. Se gosta de escrever, escreva! Essa catarse você terá de fazer da forma que achar melhor. No meu caso, sempre faço escrevendo. E eu, pessoalmente, também jamais tenho vontade de queimar meus textos, mas sempre me orgulho deles e, relendo-os, sinto-me realmente forte, porque vejo que sobrevivo a tudo, exatamente como Clarissa descreve.

Nessa atividade há algo que considero tão ou mais importante do que simplesmente lembrar e registrar. Não faça isso com pressa. Não se imponha um prazo para terminá-la.

Pode-se demorar um dia ou meses para terminar um trabalho desses. Ou jamais terminar. Acredito que seja extremamente importante, a cada registro que você fizer, você realmente lembrar porque aquilo, naquela ocasião, te causou tanto desgosto ou alegria. E como você vivenciou isso, como curtiu essa alegria ou como livrou-se da dor.

Que crenças você tinha, que fizeram com que o acontecimento fosse tão traumático? De onde você tirou forças para reagir? Que estratégia usou para superar a situação? E, depois de superá-la, como se sentiu? Hoje, quando se recorda, o que pensa disso? Se a situação se repetisse, no seu contexto atual, reagiria diferente? Não sofreria tanto? Sairia dela da mesma forma? Ou ela já representaria uma bobagem, com a cabeça que você tem hoje? Se você achar interessante, registre num caderno, ou num arquivo, todas essas impressões. Você estará escrevendo a história da sua vida. Mais do que isso: estará compreendendo essa história. E, através dessa compreensão, acredito que poderá escrever uma história mais feliz daqui pra frente. :)

Outra coisa tremendamente importante: você conseguirá captar se realmente tudo em sua vida foi resolvido. Ou se você pulou algumas etapas, escondeu sujeiras sob o tapete, fingiu ter engolido coisas que, na verdade, apenas está mascando, como um chiclete velho que já causa engulhos, mas que você não sabe onde jogar.

Essa é a hora pra você começar a resolver tudo isso. Resgate as etapas perdidas, viva o que não foi vivido, levante o tapete, encare essa sujeira e varra-a para o lixo, cuspa esse chiclete, você não precisa engolir isso! Faça uma limpeza na sua vida. Chore rios de lágrimas, se for preciso, mas, como diz Clarissa, essas lágrimas vão desencalhar do meio das pedras o barco que carrega a vida da sua alma, e vão carregá-lo para um lugar novo, um lugar melhor. Tenha essa coragem. Isso é imprescindível. Bom trabalho!

Beeeijos! :)

Analú

Reencontre-se! – Recolhendo Ossos e Fazendo Contato com sua Alma – O Ato de Criar

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Olá! :)

No mês passado falei sobre o incrível poder que o choro tem de nos colocar em contato com nossa alma. Hoje quero abordar outra forma de recolher ossos: a criação. Criar, dedicar-se ao que mais gosta, produzir arte, seja ela qual for, é, com certeza, uma das mais belas formas de você fazer contato com você mesma. 

A criação é a chave de uma porta que dá pra dentro de você. No meu caso, sei que essa chave é o ato de escrever. E no seu? Pode ser que você tenha essa resposta na ponta da língua, e isso é ótimo! Você é uma privilegiada. Aproveite! Mas também pode ser que você esteja há tanto tempo envolvida com uma rotina de cumprimento de obrigações, que já nem se lembra mais do que gosta de verdade de fazer. É hora de parar e pensar. Cavoucar um pouquinho dentro de você mesma e descobrir o seu próprio caminho. 

Dedicar-se a algo de todo coração, entregar-se à tarefa de corpo e alma, é um ato de introspecção extremamente eficaz, que pode te levar a encontrar pedacinhos do seu esqueleto, perdidos há muito tempo. 

Mulheres sabem disso intuitivamente. Desde muito pequenas há atividades que despertam nossa curiosidade, nos atraem e nos encantam, sem que fiquemos racionalizando muito a esse respeito. 

Por um longo período, quando eu ainda era uma criança, um de meus irmãos montou uma fábrica de bolsas e cintos de couro no salão de nossa casa. Eu e minhas irmãs simplesmente enlouquecíamos olhando os materiais, catando sobras e inventando nossos próprios acessórios! A sensação de ter criado com nossas próprias mãos peças que, depois, até fariam sucesso entre nossas amigas, era algo nem de longe comparável a comprar um acessório pronto, em qualquer loja! Com a vantagem adicional de que, enquanto estávamos absorvidas na tarefa da criação, estávamos fazendo contato com nossas almas. Muitas mulheres que conheço usam, intuitivamente, o artesanato como uma forma de terapia, mesmo que com isso não ganhem qualquer dinheiro. Estar totalmente absorvida numa atividade de que gostamos muito é uma das formas de voltar pra casa, reencontrar-se consigo mesma.

Certa vez assisti uma entrevista de Maria Rita, a filha de Elis Regina, no programa do Serginho Groissman, onde ela relatou, com muita simplicidade, que, desde que engravidara de seu filho, já há vários anos, fazia e desfazia um pequeno pedaço de crochê, sem o objetivo de terminar o trabalho, apenas por fazer. Interessante que ao falar sobre isso ela parecia não saber expressar exatamente o porquê da coisa, e talvez ela mesma achasse esquisita tal dedicação a algo que nunca se transformaria em nada. 

Acredito que toda mulher saiba o que é isso. Quem aprendeu, desde cedo, a tricotar ou crochetar, sabe o quanto é prazeroso enquanto estamos totalmente envolvidas com nossas agulhas e linhas, vendo o movimento de nossas mãos fazer aquele pequeno pedaço de arte crescer! Tão prazeroso, que, muitas vezes, pouco importa se o resultado final será bom ou não! 

Ao assistir essa entrevista lembrei das inúmeras blusas de lã que comecei a tricotar no começo do inverno, para, com a chegada do verão, acabar dando aquele pedaço de blusa para alguém que quisesse terminá-la! E de um pedaço de tricô que fiquei tricotando e desmanchando enquanto ficava ao lado do meu pai, em seu último mês de vida, dentro de um hospital. E da enorme quantidade de caixinhas de madeira que comprei e decorei com o intuito de vender, sem nunca conseguir, o que acabava não me frustrando, porque, no fundo, sabia que estava preservando a saúde da minha psique, fazendo algo de que gostava. E tantas coisas mais…

Aquilo de que você gosta a ponto de se envolver e esquecer-se de tudo o mais por algum tempo; aquilo que te faz se interiorizar, ficar totalmente absorvida e que você percebe que te reabastece para enfrentar novamente suas atividades rotineiras, merece sua total atenção.

Clarissa diz que voltar pra casa (entrar em contato consigo mesma) é fundamental para sua saúde física e mental. E que deve ser algo disciplinado, cuja frequência será determinada pelo seu ritmo de vida. Você deve sentir quantas vezes por semana, ou por dia, deve parar para se reabastecer. E esse deve ser um momento respeitado por todos. Você precisa poder pegar suas coisas, ir para o seu canto, dizer “tchau, estou indo”, e as pessoas precisam saber o que isso significa: que você quer estar consigo mesma e quer que a respeitem. Logo todos notarão que você volta de lá bem melhor, e ficarão felizes com isso. ;)

No próximo post vou falar sobre “O Capote Expiatório”, um relato de Clarissa que me inspirou a sugerir a você uma outra forma de remontar seu esqueleto.

Beeijos!!! :)

Para participar de um trabalho de autoconhecimento via e-mail escreva para analugare@yahoo.com.br.

Recolhendo Ossos e Fazendo Contato com sua Alma – O Poder do Choro

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A princípio, só o fato de ler as histórias de Mulheres que Correm com os Lobos e pensar um pouco sobre elas já é “recolher ossos”. Naturalmente elas vão te reportar a situações que você viveu, às saídas que você achou para os seus problemas, a sentimentos que você nem ao menos compreendeu, a emoções que você sepultou.

Lendo as histórias e pensando sobre elas você vai se “reconstruindo”, e tem a chance de relembrar do que te faz sentir-se viva. E de aprender a reagir de forma diferente em situações que te machucam, não se machucando mais ainda. Mais do que isso, tem a chance de identificar quais são essas situações, porque, muitas vezes, varamos nossos dias tão envolvidas em tarefas rotineiras obrigatórias, que passamos por cima de nossos próprios sentimentos. Seguimos, como máquinas, à la zumbi, como diz Clarissa, atendendo às necessidades de todos e negligenciando as nossas, e nem temos tempo de avaliar, ou de sentir profundamente o que estamos sentindo. Talvez seja por isso que, muitas vezes, repentinamente, uma palavra torta, um olhar enviesado, uma tola malcriadeza de filhos adolescentes tem um efeito bombástico, detonando em nós crises de choro que surpreendem a todos que estejam nos observando. Afinal, não era motivo pra tanto.

É claro que mesmo um observador desatento pode perceber, nesses momentos, que você está se rebelando por tudo o que tem passado, não apenas pelo que aconteceu naquele instante.

Lembro-me de uma situação que vivi em que ficou mais do que evidente que minha reação exagerada a uma bobagem momentânea, na verdade, foi uma explosão de sentimentos represados, que se aproveitou de um pequeno detonador para poder acontecer.

Meus dois filhos estavam numa idade difícil e eu vinha encontrando dificuldade para que me escutassem. Meu relacionamento com meu marido sempre fora complicado. Eu me abandonara, cuidando de tudo e de todos, e tinha pouquíssimos momentos de prazer. Não ficava comigo mesma nunca. Os meninos tinham mania de brincar com uma mini bola de futebol muito leve e macia em minha sala, que não é nada grande. Aquilo me irritava profundamente, mas eles eram surdos aos meus pedidos de que parassem. Certo dia, eu estava atravessando a sala, e, do corredor lateral, que dá acesso à cozinha, a pequena bola veio com toda velocidade e bateu bem no meio da minha testa. Claro que por ser inofensiva, não me machucou, mas me pareceu uma agressão tão grande, por ser a gota que faltava para que o copo transbordasse, que me pus a chorar como se estivesse gravemente ferida. Os meninos ficaram, a princípio, apavorados, mas quando perceberam que nada real havia acontecido, acabaram rindo de mim, sem compreender o exagero da minha reação. Mais tarde, rindo de mim, contaram ao pai o escândalo que eu havia feito por algo tão tolo!

Uma crise de choro detonada por qualquer motivo sempre traz junto as lembranças de nossas frustrações, de nossos desejos não realizados, de nossos sentimentos de auto-piedade, e de tudo aquilo que engavetamos para prosseguir em nosso dia-a-dia sem maiores abalos ou rupturas.

Durante minha infância e adolescência, enquanto morei na casa de meus pais, lembro-me que minha mãe sempre interpretava minhas crises de choro como um sinal de que eu não estava normal, e isso me magoava profundamente, porque eu sentia que estava apenas extravasando sentimentos que não pudera manifestar de outra forma, o que me ajudava a me conhecer. Mas isso sempre era motivo de críticas.

Depois de adulta, descobri que conseguir expressar os sentimentos é altamente saudável, funcionando, inclusive, como um preventivo contra a depressão. Uma tristeza vivida não se transforma em depressão. Cumpre seu ciclo, e se vai. E percebi com tanta clareza o grande serviço que essas crises de choro me prestavam, trazendo à tona sentimentos profundos, que aprendi até mesmo a manipulá-las, usando algum detonador que eu sabia que surtiria efeito. Muitas vezes, querendo me livrar de alguma angústia que a mim mesma não estava clara, ia até uma locadora de vídeos e procurava algum filme que sabia que mexeria com meus sentimentos, assistia sozinha, à vontade. Era fatal. O filme retratava situações que me reportavam à minha própria vida, alguma cena mais emocionante me trazia lágrimas aos olhos e, quando percebia, já estava fazendo uma verdadeira catarse da minha angústia. Junto com o choro vinha tudo, e eu aproveitava a oportunidade para encarar minhas frustrações de frente e tentar descobrir formas de saná-las. Momentos em que choro são momentos em que posso dizer que converso com minha alma. Ou que recolho ossos, para depois tentar encontrar que música cantarei para reanimar meu esqueleto já montado.Eu espero, sinceramente, que você não tenha muitos motivos pra chorar… Mas quero te dizer que, quando lhe der vontade, chore, e aproveite o momento para se interiorizar. Não se preocupe com o que vão pensar. Não se esforce demais pra parar antes da hora. Não ligue pra torcida. Viva sua dor, e aproveite pra crescer. Em algum momento, com certeza, ela se irá, e você estará mais forte. :)

 Beijos!!! :)

As experiências iluminadoras

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Olá!

Em nosso último encontro falei que muitas mulheres passam a vida se disfarçando para agradar a sociedade.

E que o resultado disso, muitas vezes, é que nos afastamos de tal forma de nós mesmas que acabamos esquecendo de como realmente somos.

Listei algumas características de uma mulher saudável, e  sugeri uma interiorização que buscasse dentro de você essa mulher. Que lhe respondesse o quanto você está perto ou distante de si mesma.

E disse que algumas situações de nossas vidas são situações iluminadoras, ou seja: fazem-nos sentir a presença da mulher selvagem naturalmente, sem que façamos esforço para isso, provocando em nós uma enorme vontade de estar mais e mais em contato com essa mulher selvagem. Nossa essência, nossa alma. E prometi que contaria a você uma experiência sonora que tive, que foi muito claramente uma situação iluminadora. Vamos lá!

Sou a última de seis irmãos. Quando nasci, minha irmã mais nova já tinha cinco anos. Ao chegar aos oito, eu era a única criança da casa. Para mim, meus irmãos eram todos adultos. Eu sentia um grande distanciamento deles, o que me dava uma certa sensação de solidão. Hoje percebo que naquela época provavelmente eu já começara a me “disfarçar”, para não desagradar demais minha família de adultos. A grande sorte que tive foi que nunca me incomodei muito em desagradar, talvez por já ter uma alma bem presente, o que me deu fama de rebelde.

Durante um bom período da minha infância e adolescência, sempre que as férias chegavam, minha melhor amiga me convidava para passá-las em seu apartamento, em Santos. Era uma verdadeira farra! Estava com alguém da minha idade, num lugar agradável, íamos à praia, dormíamos tarde, falávamos muito e comíamos as maravilhosas iguarias que sua cozinheira nos fazia! Verdadeira receita de felicidade! Eram momentos muito bons, nos quais eu não me importava com nada, a não ser em me divertir como bem entendesse, e ser eu mesma.

Vez ou outra, quando estávamos na sala, jogando cartas ou assistindo TV, escutávamos uma voz ao longe gritando: “Olha o pão de cará! Pão de cará fresquinho…” Pulávamos de onde estivéssemos e íamos em busca de dinheiro para comprar o maravilhoso pãozinho! Quando subíamos, a cozinheira de minha amiga, uma negra que me fazia viver o sonho de estar no Sítio do Pica-pau Amarelo com Tia Anastácia, já colocara a mesa, já fizera o café e já fervera o leite. Passávamos a manteiga nos pães e os comíamos, alegres, e o prazer do paladar misturava-se ao prazer de estarmos juntas, de férias e despreocupadas, numa sensação que, na época, talvez eu não imaginasse que seria inesquecível.

A vida nos levou pra rumos diferentes, nunca mais vi minha “melhor amiga”, mas aquela sensação ficou guardada em algum compartimento da minha alma, para que nalgum dia, alguma “chave” o abrisse e a libertasse.

Poucos anos atrás, eu já com mais de quarenta anos, estava numa viagem de férias numa praia do Litoral Norte de São Paulo, com toda a minha família, e me balançava levemente numa rede, num fim de tarde, quando escuto ao longe: “Olha o pão de cará! Pão de cará fresquinho…” Aquilo foi como um retorno à minha infância, e veio com tanta força, que pulei da rede e saí correndo em busca de dinheiro para alcançar o vendedor antes que fosse embora! Coei café, fervi leite, pus a mesa, e comi aquele pãozinho de cará sentindo a mesma alegria em minha alma que sentia nas minhas férias em Santos!

O vendedor de pães passava todas as tardes, e todas as tardes, até voltarmos pra São Paulo, eu comprei pães de cará e os comi como se estivesse resgatando um pedaço alegre da minha natureza. E aquela sensação específica de alegria aflorava no momento em que eu ouvia, longe, o chamado do vendedor. Voltei pra casa mais gorda, é claro! Foi a percepção mais forte que tive do poder de nossa memória auditiva, e de como um simples som pode abrir uma porta para a alma. E foi fantástico!

Essa inspiração fugaz que se apossa de nós nesses momentos, e que nos faz perceber que ainda estamos vivas é motivação para que viremos a mesa, porque não vamos mais prosseguir sem ela. Nesses momentos de iluminação percebemos o quanto nossa vida pode ser mais natural, mais vibrante.

Eu gostaria agora que você pensasse a esse respeito, e tentasse encontrar em sua memória suas próprias experiências, suas próprias histórias.

Um alerta: você deve estar preparada para o seguinte: no início da restauração do seu relacionamento com a mulher selvagem ela pode se dissolver em fumaça a qualquer instante. Se lhe damos um nome estamos criando um espaço de pensamento e sentimento para ela dentro de nós. Ela virá, e se a valorizarmos, permanecerá.

Espero sinceramente, que você a chame, que a nomeie (pode ser mulher selvagem mesmo, ou qualquer outro nome que queira lhe dar, mas que você saiba que é ela), que tenha um pouco de paciência para esperar que ela se manifeste, que a receba bem, e que permita que fique.

Espero que neste Natal você já tenha catado vários ossinhos, rsrs… e que, no início de 2010 você já comece a remontar seu esqueleto. E que passe 2010 todinho cantando sobre eles, soprando vida em você mesma, renascendo a cada dia, e a cada dia mais feliz!

Um Feliz Natal e um maravilhoso Ano Novo pra todas vocês!

Começando a Catar Ossos

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Da última vez que nos encontramos, encerrei meu post com a sugestão de Clarissa: “Está querendo ajuda psicanalítica? Vá recolher ossos”.

Quando Clarissa diz: vá recolher ossos, ela pretende te estimular a catar os pedacinhos da sua alma que foram ficando por aí, ao longo da vida, por um ou outro motivo. Você pode estar se perguntando por onde começar. Sua vida já pode estar tão tomada por uma rotina que você nem questiona mais, que você perdeu o hábito de se interiorizar. Talvez eu possa dar uma ajudinha, te forçando a pensar um pouco. Vamos lá!

Clarissa compara a mulher moderna a um borrão de atividade, que sofre pressões para ser tudo para todos, e não consegue mais manifestar a velha sabedoria.
Você sofre essas pressões? Você se sente cobrada, assume responsabilidades que na verdade não são suas, acumula funções, passa o dia inteiro trabalhando e no final sente que não realizou nada? E então, perante algum problema, perante a necessidade de tomar uma atitude, de fazer uma escolha, de aconselhar a si mesma, você simplesmente fica sem ação? E, em nome de quê você enveredou por esse caminho? Comece a se perguntar.

Ao longo da História, os que não compreendem as mulheres agem como verdadeiros predadores da sua alma, perseguindo, acossando, acusando-as de serem trapaceiras e vorazes, excessivamente agressivas e de terem menos valor que eles. Para se proteger de seus predadores, há muito, muito tempo, mulheres passam a vida disfarçadas. Quando você se disfarça por muito tempo, começa a esquecer do que você realmente é.

Vou listar abaixo as características psíquicas que Clarissa considera comuns em lobos e mulheres saudáveis (nossas características selvagens), para que, identificando-as, você comece o trabalho de se desfazer de seus disfarces:

- percepção aguçada;
- espírito brincalhão;
- elevada capacidade para a devoção;
- natureza gregária (gostam de companhia, são sociáveis);
- curiosidade;
- grande resistência e força;
- intuição;
- têm grande preocupação com seus filhos, seu parceiro e sua família;
- têm experiência em adaptar-se a circunstâncias em constante mutação;
- determinação feroz e extrema coragem.

Seria interessante que você se perguntasse, nesse momento, e daqui pra frente, quais dessas características você reconhece em você. O quanto algumas estão fortes e claras, e o quanto outras simplesmente parecem ter desaparecido, tão distantes estão. A partir de que momento algumas se afastaram, e porquê. Claro que você não vai ter todas as respostas imediatamente, mas perguntar-se é um começo. Essa questão vai aflorar em algumas situações e, enquanto lê as histórias, você vai perceber, vai questionar, vai desencavar, bem lá no fundo do seu ser.

A autora diz que há algumas situações que normalmente são iluminadoras, fazendo-nos sentir a presença da mulher selvagem, o que provoca em nós uma vontade louca de senti-la mais e mais. Vou transcrevê-las aqui:

- a gravidez;
- a amamentação;
- perante o milagre das mudanças que surgem quando se educa um filho;
- quando vivemos um relacionamento amoroso;
- através da visão de algo que nos desperta os instintos;
- através dos sons mais variados – uma música, o som de um tambor, um assobio, um grito;
- através das palavras – um verso, um poema, uma frase perfeita.

Simplesmente lendo a lista acima fui reportada aos melhores momentos da minha vida. A simples lembrança dos períodos em que amamentei já me traz felicidade. Sempre que reflito a respeito disso chego à conclusão de que essa sensação de plenitude vinha, além da própria maternidade, pelo fato de que me sentia absolutamente necessária para meus filhos, então deixava de me atormentar com questões menores, deixava de querer ser melhor do que eu era e permitia que o amor fluísse, na sua forma mais pura, dedicando-me de todo coração. Eram momentos em que estava em puro estado selvagem. Daí a paz interior. Daí a felicidade.

A música é outra coisa que me coloca em contato direto com minha alma. Seu poder é tão natural e maravilhoso, que sei que posso usá-la como recurso real quando quero sair de um estado de tristeza, ou entrar num estado de romantismo, ou quando quero me sentir mais forte. Desanimada, coloco o CD infantil da Adriana Calcanhoto e instantaneamente, aos primeiros acordes, já saio cantando, pulando e rodopiando, a ponto de provocar riso em quem me vê. Esqueço de tudo, alma pura. Quando estou muito cética escuto John Mayer e sou capaz de sentir o romantismo se apossando de mim, uma docilidade agradável, uma disposição instantânea para a paixão. Se me sinto fraca, apelo pra Cássia Eller e na terceira música já estou forte, cantando tão rebelde quanto ela. Sei que a música é ligação direta para minha alma.

Há uma experiência sonora interessante, que não tem a ver com música, que foi bem viva pra mim, e que quero relatar aqui. Um som que abriu um portal para a minha infância e que me fez reviver momentos extremamente prazerosos, me estimulando a tê-los novamente.  Mas, como hoje já falei muito, vou deixar para o nosso próximo encontro. Por hora, gostaria que você tentasse responder algumas das perguntas que fiz, e buscasse, dentro de você, suas próprias situações iluminadoras, quando sua mulher selvagem aflorou com toda a força, e você viveu de verdade.

Beeeeijos!!!

Analú :)

A Ressurreição da Mulher Selvagem

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Um estudo sobre “La Loba”, a Mulher-Lobo

Olá! :)  

Em nossos últimos encontros, falei sobre a necessidade que temos de criar e coloquei alguns questionamentos para que você pensasse sobre seu processo criativo. Muitas mulheres podem ter respondido as minhas perguntas de imediato, mas muitas podem ter tido uma enorme sensação de distanciamento de si mesmas. É comum ouvirmos mulheres se queixando de, após uma vida de dedicação à família ou ao trabalho, terem perdido o contato consigo mesmas de tal forma, que já não sabem dizer do que gostam, o que lhes dá prazer, o que lhes traz felicidade. 

A primeira história de Mulheres que Correm com os Lobos, La Loba, é uma metáfora sobre o que uma mulher precisa fazer para se reencontrar consigo mesma, e voltar a viver plenamente. La Loba nos ensina a catar os pedacinhos de nossa alma que, por um ou outro motivo, ficaram perdidos por aí. E nos faz pensar no que fazer para lhes dar vida de novo.   

Clarissa Pinkola Estés diz que a vida de muitas mulheres é como a vida no deserto: ínfima na superfície, mas imensa por baixo. Diz que muitas mulheres que analisou chegavam a seu consultório queixando-se de não se sentir mal, mas também não se sentir bem. E diz que faltava, em suas raízes, esterco. E sugere como cura La Loba. Porque é ela que cuida do que já morreu e do que está morrendo nas mulheres. 

Antes de começar a narrativa, vou dar algumas chaves para a compreensão da história:

- La Loba  está dentro de nós. Ela indica o que devemos procurar – os ossos, que representam a indestrutível força da vida.

- A ressurreição da Mulher Selvagem se dá quando La Loba canta sobre os ossos que reuniu. Cantar significa usar a voz da alma, soprar alma sobre aquilo que está doente ou precisando de restauração.

- Reencontrar-nos com nossa própria alma é um mergulho profundo em nosso amor e em nossos sentimentos, e é um trabalho solitário, realizado no deserto da psique (alma).
- A casa de La Loba é o lugar onde o espírito das mulheres e dos lobos se encontram, onde a mente e os instintos se misturam, onde a vida profunda da mulher embasa sua vida rotineira, onde as mulheres correm com os lobos.

Vamos à história!

 La Loba

Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos-de-fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.
Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.
Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que foi vista viajando para o sul, para o monte Alban, num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-Lobo.
O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia de ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.
Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar. Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pelos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.
La Loba canta mais e a criatura-lobo começa a respirar.
E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.
Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.
Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo – algo da alma.

Acredito que nossa tarefa seja ir fundo em nossas recordações. Buscar o que, em alguma época da nossa vida, nos satisfazia plenamente, nos deixava felizes, nos preenchia a ponto de parecer que não precisávamos de mais nada na vida. Analisar em que momento perdemos isso, deixamos de fazer ou de sentir, abrimos mão por algum motivo banal, por falta de tempo, por sermos tiranizadas pela sociedade, ou por não priorizarmos nosso próprio prazer. Ou sabe-se lá que outros motivos possamos ter. Mas nossa obrigação é adubar essas recordações, fazê-las renascerem, pouco-a-pouco deixá-las florescerem, e embelezar o mundo que nos rodeia com elas.
Busque dentro de você aquilo que, quando realiza, se sente em paz com a vida.

Os caminhos para você chegar a sua mulher selvagem são os mais variados: a meditação profunda, a dança, a arte de escrever, de pintar, de rezar, de cantar, de tamborilar, de imaginar, o caminho das artes, e também através da solidão intencional. Você precisa descobrir suas próprias portas, que podem ser poucas, mas são valiosas. Uma cicatriz profunda, uma história muito antiga, algo de que você gosta tanto que mal consegue aguentar, o anseio por uma vida mais profunda, mais plena, mais sã… Uma coisa é certa: toda mulher pode chegar lá.

 
Sugiro que você releia “La Loba” e encontre suas próprias interpretações.

 Pra finalizar, vou transcrever aqui a última frase do capítulo que estamos estudando, exatamente como Clarissa coloca:

“Está querendo ajuda psicanalítica?
Vá recolher ossos.”

Beeeijos!!! :)

Analú 

Os quatro rabinos

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Quando estamos muito distantes da nossa alma, e de repente fazemos contato com ela, é normal que nos assustemos, ou nos sintamos deslumbradas. Estamos fazendo contato com o Divino. Nossa alma é a versão primeva de nós mesmas: dentro de cada mulher há uma mulher perfeita, em estado puro, tal qual veio a esse mundo,  não-maculada pelo ambiente, pela sociedade, por moralismos, ou seja lá pelo que for. Ela contém tudo o que você precisa. Ela tem as respostas certas pra você e também os ingredientes para te curar daquilo que te faz adoecer.

Lendo as histórias de Mulheres que Correm com os Lobos, que trabalharemos aqui,  pensando sobre elas, sentindo-as,  você vai começar a entrar em contato com você mesma. Isso pode te assustar, a princípio, mas logo você vai perceber o quão gratificante é ter, dentro de você, uma amiga sábia em quem confiar. E isso também pode te deslumbrar, fazer com que você sinta algo e não saiba como agir. Às vezes sentimos que transbordamos uma energia, mas não sabemos como canalizá-la para obtermos um resultado positivo para nós mesmas e para o mundo à nossa volta.
Hoje vou contar uma história que fala exatamente sobre isso: o que fazer quando entramos em contato com o Divino. Essa história se chama Os Quatro Rabinos:

Uma noite quatro rabinos receberam a visita de um anjo que os acordou e os levou para a Sétima Abóbada do Sétimo Céu. Ali eles contemplaram a sagrada Roda de Ezequiel.
Em algum ponto da descida do Paraíso para a Terra, um rabino, depois de ver tanto esplendor, enlouqueceu e passou a perambular espumando de raiva até o final dos seus dias. O segundo rabino teve uma atitude extremamente cínica. “Ah, eu só sonhei com a Roda de Ezequiel, só isso. Nada aconteceu de verdade.” O terceiro rabino falava incessantemente no que havia visto, demonstrando sua total obsessão. Ele pregava e não parava de falar no projeto da Roda e no que tudo aquilo significava… e dessa forma ele se perdeu e traiu sua fé. O quarto rabino, que era poeta, pegou um papel e uma flauta, sentou-se junto à janela e começou a compor uma canção atrás da outra elogiando a pomba do anoitecer, sua filha no berço e todas as estrelas do céu. E daí em diante ele passou a viver melhor.

Quem viu o quê na Sétima Abóbada do Sétimo Céu, não importa. O que importa é que o contato com a  nossa essência nos preenche com uma sensação de amplitude e de grandeza, que nos leva a agir a partir da nossa natureza integral mais profunda. Farei aqui a minha especulação a respeito das reações dos rabinos. Faça a sua. O objetivo é esse: pensar. Vamos lá!

O primeiro rabino deslumbrou-se de tal forma perante a visão do Divino, que não pôde aceitar a idéia de ter que voltar e enfrentar o mundo real. Como viver num mundo cheio de imperfeições, depois de ter conhecido a perfeição? Ficou enraivecido, e enlouqueceu. Pensemos em nós. Mesmo que estejamos totalmente antenadas com nossa alma, é possível vivermos integralmente mergulhadas em nossa vida profunda? O mundo à nossa volta, nossos relacionamentos, nossas necessidades materiais, são exigências permanentes de atitudes reais. É por esse motivo que o mergulho em nossa alma deve nos servir como um banho refrescante num dia de calor, dando-nos um alívio para uma rotina às vezes desgastante. Nossa vida profunda deve embasar nossa vida rotineira, embelezando-a e fazendo com que valha a pena.
O segundo rabino foi cético. Não aproveitou o que viu. Não faça isso. Não seja cética em relação à sua alma. Não ignore suas mensagens, aceite a ajuda que ela lhe oferece, e sua vida será muito melhor. Virar as costas para sua alma é receita certa para o arrependimento.

O terceiro rabino me fez lembrar de um episódio que esclarece o sentido de ele se perdeu e traiu sua fé. Alguns anos atrás, a cantora Baby Brasil foi ao Programa do Jô e fez um relato de um encontro que tivera com Deus. Seu relato foi tão fantástico e sua descrição tão cheia de detalhes mirabolantes, que ficou impossível, para quem estivesse assistindo seu depoimento, não colocar em dúvida sua sanidade mental. Escutei comentários do tipo: o que será que ela havia tomado? Sinceramente, acreditei que tudo o que ela descreveu, ela realmente viveu. Só que cada um vivencia o Divino à sua própria maneira. Experiências desse tipo são totalmente pessoais e tentar descrevê-las pode acabar fazendo com que viremos chacota.
O que fazer, então, quando entramos em contato com o Divino? O quarto rabino nos dá a resposta: quando entramos em contato com nossa essência, e sentimos essa sensação de amplitude e grandeza, o melhor a fazer é criar, para melhorar e embelezar o mundo à nossa volta. Não devemos supervalorizar nem subestimar essa experiência. Mas temos a obrigação moral de exprimir o que foi aprendido, de vivenciar  no mundo real o que recebemos nesse contato.
Observe que o quarto rabino recorreu aos recursos que já possuía: ele era poeta e tocava flauta. Sua reação natural foi criar lindas músicas.

Vou deixar aqui uma pergunta, pra que você reflita: se hoje você tivesse uma experiência dessas, e se sentisse transbordando, o que você criaria? Qual o dom que você tem a que pode recorrer quando quer extravasar algum sentimento? Espero que você pense profundamente nisso!